Arquivo da categoria: Na primeira pessoa

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Conhecer as experiências de outras pessoas com alergias ou intolerâncias alimentares pode ajudar na adaptação e nas mudanças de vida inerente às referidas patologias.
Esse conhecimento ajuda também a perceber que quem sofre dessas patologias não está sozinho e que outros passam pelos mesmos desafios e angústias, encontrando respostas aos mesmos.

Nesta secção, jovens e adultos com alergias ou intolerâncias alimentares, bem como pais de crianças e adolescentes com as mesmas patologias, partilham os seus testemunhos “Na primeira pessoa”.

Caso queira partilhar connosco o seu testemunho, envie-nos um email para geral@alimenta.pt, com o assunto “Na primeira pessoa”, juntamente com a seguinte informação (sua, ou, se for o caso, do seu filho):
– Que alergias ou intolerâncias alimentares tem;
– Nome e idade;
– Fotografia.

Quanto ao testemunho, pode abordar vários aspectos, tais como:
– Qual tem sido o aspecto mais difícil relativo à alergia ou intolerância?
– O que gostaria que outras pessoas soubessem acerca das alergias ou intolerâncias alimentares?
– O que aprendeu com esta situação?
– Que impacto teve na sua família ou no relacionamento com outros?
– Que conselhos dá a quem foi recentemente diagnosticado?

Pedro Maia, 38 anos, alérgico às Xantinas

O meu nome é Pedro e até há um ano atrás olhava com desdém para pessoas com alergias. Como é que uma comida específica poderia fazer tão mal a alguém, e ainda por cima só fazer mal a partir de certa idade? Sempre desconfiei de pessoas que, em adultas, de repente se declaravam alérgicas ou intolerantes a algum alimento, ao ponto de em alguns casos dar-lhes um pouco desse alimento na comida (aquilo que vejo hoje como uma atrocidade e que felizmente só fiz mesmo com pessoas com falsas alergias).

Sempre fui obeso, com o meu peso a oscilar entre os 140 e os 170 quilogramas desde os 20 anos. Vivi em vários países, imergi-me nas suas gastronomias e sempre fui um grande apreciador da boa mesa. Há cerca de um ano resolvi porém que estava na hora de perder peso porque a minha profissão obriga-me a várias deslocações de avião e nessas alturas sentia-me bastante censurado por quem me rodeava.

Feita uma breve experimentação com vários regimes alimentares, adaptei-me bem a uma alimentação LCHF (Low Carb High Fat) e, sem exercício, comecei a perder peso ao longo das semanas… 170… 165… 150…140…135…130…120… e eis que nesta milestone acontece o primeiro episódio de alergia.

O meu trabalho obriga por vezes a grandes jornadas nocturnas em que faço uso de copiosas quantidades de café. Numa dessas noites bebi cerca de 1 litro de um belíssimo blend de arábicas das Caraíbas e o resultado foi acabar na cama com palpitações e um crescente aperto na garganta. Consegui controlar a minha respiração na manhã seguinte e atribuí a obstrução que sentia no pescoço a alguma inflamação pelas muitas horas de reuniões que tinha tido no dia anterior mas ao longo da manhã a sensação de aperto piorou até que ao almoço dei entrada no hospital.

Como estava em Portugal nada foi feito na urgência: fui diagnosticado a olho pelo médico com uma pneumonia química, medicado com um poderoso anti-histamínico e mandado para casa ao fim de 12 horas.

O episódio seguinte aconteceu em Londres após a ingestão das minhas trufas de chocolate 85% favoritas onde, fruto de um verdadeiro Serviço Nacional de Saúde fui finalmente diagnosticado por um médico imunoalergologista (sim, em Inglaterra à especialistas nas urgências, quem diria?) bastante surpreso: pela primeira vez em 10 anos de carreira o clínico confrontava-se com alguém que tinha testado positivo a todas as xantinas externas ao corpo humano.

As Xantinas existem em nós, fazem parte do nosso organismo. As xantinas externas de origem não-animal que podemos consumir são a Cafeína, a Teobromina e a Teofilina. Existe ainda uma forma animal destas xantinas que é a para-xantina, resultantes de um animal se alimentar com as plantas que contêm xantinas. Enquanto a Cafeína e a Teofilina são relativamente fáceis de evitar consumir por terem portadores óbvios (café e chá) a Teobromina tem sido aquela que mais vezes me tem levado ao hospital dado que não só está no chocolate mas também na alfarroba e em vários frutos secos quando não devidamente processados em separado de grãos cacau, o que lança um manto de suspeita sobre nozes, pistácios, cajus, castanhas do maranhão e outros.

Durante 37 anos a minha obesidade protegeu-me de desenvolver alergia a estas substâncias, e quanto mais peso perdi mais violentas se tornaram as reacções a cada vez mais pequenas doses.

Se a minha primeira reacção ao café aconteceu depois de ter ingerido um litro do mesmo, a mais recente (à poucas horas antes de escrever estas palavras) aconteceu simplesmente com café em pó em suspensão no ar de um café enquanto a proprietária moía o café sem ter a tampa no depósito de café moído. Mal a reacção alérgica começou saí imediatamente e agora cá estou, com os olhos raiados de sangue, ainda muito pingo no nariz, mas já felizmente sem o aperto na garganta que me acompanhou nas primeiras duas horas após o contacto. Estou são e salvo, vou sobreviver, sobrevivi a mais um ataque do destino.

Como quando peço uma cevada e me trazem um instantâneo de cereais e café como se fosse só cevada ou uma chávena com algum café porque se enganaram à primeira a fazer o pedido.

Como quando me trazem um chá e me dizem que é uma infusão.

Como quando aplico um creme que não descrimina que tem manteiga de cacau nos ingredientes.

Como quando me garantem que uma sobremesa não tem chocolate e depois dizem que afinal tem quando já estou a fazer uso da Anapen.

Como quando num café apinhado, com má circulação de ar, os vapores de café acabam por me provocar uma reacção alérgica.

É difícil… procuro sobreviver… ironizo muito com a minha situação, há gente a viver em muito piores condições de vida… tento não tomar anti-histamínicos muito fortes, às vezes aguento um episódio só com Cetirizina porque não cheguei a ter sintomas demasiados violentos e esperando que a obstrução das vias respiratórias não aconteça de forma tão rápida que me impeça de chegar à minha mochila e usar a Anapen.

Todas as ingestões de comida fora de casa são muito complicadas: ainda recentemente num restaurante com estrelas Michelin, em Genebra, tive uma reacção alérgica porque se esqueceram que os cubinhos de gelatina de medula de vaca tinham sido feitos com chá preto. Antes tinha sido um gelado de limão que afinal também tinha chocolate branco como ingrediente secreto, em Paris, a dar o mote para mais uma ida às urgências numa das raras ocasiões em que não tinha a Anapen por perto.

É complicado viver assim… perdi já todo o meu excesso de peso, tenho actualmente 84kgs para 182cm mas não há um só dia em que não deseje voltar a ter 170 se me garantissem que voltaria a não ser alérgico às xantinas e a viver nesta prisão invisível, rodeado de inimigos que não conheço onde se escondem e à mercê dos conhecimentos de confecção de um empregado de mesa ou a falta de uma tampa no reservatório de um moinho de café.

Gostava de poder viver outra vez como vivi, é muito difícil ser tão regrado com a alimentação quando uma alergia se manifesta na idade adulta, quando estas coisas se desenvolvem em criança é mais fácil lidar com estas sentenças de morte escondidas e desenvolver mecanismos para evitar males maiores como por exemplo andar SEMPRE com uma Anapen por perto.

E pronto… assim se vive e (às vezes quase) se morre.

Matilde Sena, 10 anos, intolerante à lactose e alérgica à mostarda

A Matilde foi diagnosticada com 15 dias de vida quando apresentou graves sintomas a ser amamentada exclusivamente.  Diarreias crónicas, vómitos persistentes, eczema atópico exacerbado, urticária e pele muito vermelha e perdeu quase 800 g. Aos 6 meses esteve em coma 3 dias. Nasceu alérgica a APLV, Soja, ovo peixe, Frutos secos e frutos com pelo. Fez tratamento de dessensibilização e aos 4 anos todas as alergias tinham passado, mas no processo ficou Intolerante Crónica à Lactose. O ano passado descobrimos alergia à mostarda. Para ela o mais difícil é não poder comer o mesmo que os colegas e ter de andar sempre com a “Lunchbox” atrás. No verão o que mais a tenta são as montras dos gelados.

Ela gostava que as pessoas fizessem salsichas sem mostarda (adora salsichas). Que fossem mais compreensivas e tivesse mais soluções para poder ir a restaurantes. Com esta situação, aprendeu que todas as crianças são diferentes e que apesar de ser uma criança alérgica acaba por ter uma alimentação muito mais saudável. Em casa fazemos todos a mesma alimentação. Não entra nada que possa conter alergénios.

A Matilde diz para não ficarem tristes, que as alergias podem passar e se não passar as mães podem fazer em casa!

Deixo o link da reportagem e testemunho em primeira mão da Matilde:  https://youtu.be/VcUVQE2W2T0.

Vanessa Coutinho

(Mãe da Matilde)

Rute, 10 anos, alérgica a vários alimentos

Chamo-me Rute, tenho 10 anos, sou alentejana de gema e sofro de alergia alimentar. Descobrimos quando tinha apenas seis meses, quando comi a minha primeira açorda, depois com o passar do tempo descobriram a alergia ao ovo, ao peixe e ao tomate cru.

 Nunca comi um pastel de nata, mas sou feliz!!!

Sou a mãe da Rute. A Rute sofre de uma alergia alimentar como ela já disse.

A vida dela, aliás a nossa vida, teve que mudar radicalmente depois daquela noite no hospital, pois a Rute inchou toda parecia um balão, ficou com dermatite atópica até que lhe afectou a respiração… até que percebemos o que ela tinha e houve uma equipa excelente que nos ensinou a lidar com isto…

Começámos a demorar muito tempo nas compras, a ler rótulos para ver se os produtos tinham vestígios… Começámos a pedir para terem cuidado quando a beijavam, sim basta um beijo um toque. A Rute sabe o que pode e não pode comer agora, mas ao início foi muito complicado, as pessoas não acreditavam, pensavam que era paranoia dos pais. Já tivemos alguns sustos em restaurantes… Até que deixámos de frequentar para segurança da menina. Pois há muita falta de informação e as pessoas não entendem que é uma questão de vida ou de morte.

Como mãe peço que divulguem falem, gritem, pois tem sido uma batalha muito grande! Obrigada à Alimenta por divulgar e falar do assunto! Vamos mudar mentalidades, vamos fazer com que haja menos acidentes! Vamos fazer com que a sociedade mude… e vamos continuar a viver e a fazer de tudo para que a Rute seja uma menina muito feliz e com segurança.

Hugo, 29 anos, alergia a frutos secos, tomate, espinafre, maçã, pêssego, morango, manga, milho e cevada

Em 2001 descobri, da pior maneira, que tenho alergias alimentares.

Depois de uma noite a ver um filme, sozinho em casa, e a comer amendoins, fui para a cama. Era normal comer amendoins, adorava estar a descascar e a comer enquanto via filmes. Como disse, fui para a cama sem sequer pensar em nada deste género. Acordei a meio da noite com uma comichão enorme nas palmas das mãos, parecia que era por dentro da pele, e sentia-me particularmente agitado. Levantei-me e fui por as mãos debaixo de água fria para aliviar a comichão, porque coçar não resolvia. Melhorei e tentei dormir de novo para ver se aquilo passava, mas foi em vão. A comichão alastrou-se de tal forma que a minha agitação acordou os meus pais. Ao acender a luz a minha mãe apanhou um susto com o meu aspecto. De pronto chamou o meu pai para me levarem ao hospital. No elevador, o espelho não mentia. Toda a minha cara estava cheio de borbulhões, o nariz inchado, as orelhas, os lábios, os olhos… Fiquei alarmado com aquele aspecto e isso fez-me ficar ainda mais nervoso e fez com que a reacção alastrasse com mais velocidade. A caminho do hospital já sentia muita dificuldade em respirar. Já no hospital, salvaram-me a vida. Deram-me uma injecção com uma dose de “cavalo” e meteram-me a soro e a oxigénio durante umas horas valentes. Só depois me informaram que tinha sofrido um choque anafilático. Na altura presumimos que tinha sido derivado ao gel de banho.

Entretanto fui reencaminhado para o Hospital de São João, no Porto, onde tenho sido seguido desde então no departamento de Imunoalergologia. Já sou cliente da casa à bastante tempo e até já sou tratado pelo nome por todos. Segundo dizem, sou um dos poucos que tem tantas alergias e que não teimam em desaparecer. A única que já me deixou foi a alergia às laranjas, fruto que agora como quase todos os dias, depois de uns anos sem comer o dito fruto.

Resumindo, sou alérgico a tudo o que é frutos secos, desde amendoins, nozes, avelâs, castanhas ou pinhões, sou também alérgico a tomate e espinafre e sou alérgico a maçã, pêssego, morango, manga, milho e cevada. Espero não me ter esquecido de nenhum… Basicamente, tenho uma grande dificuldade em comer em restaurantes porque inúmeras coisas levam tomate, comida italiana por exemplo nem pensar. Ir a casamentos implica dar uma lista de coisas que não posso comer aos noivos, a última vez que fui limitei-me a comer um prato em três e mesmo nas sobremesas é muito limitado. Para explicar a certas pessoas que não posso comer e que não, não é porque não gosto ou sou esquisito, é deveras complicado.

Depois disto já tive mais dois choques anafiláticos, onde consegui manter a calma e dirigir-me pelo meu pé a um hospital, onde tenho sido sempre atendido muito rapidamente, embora uma ida ao hospital num caso destes implique ficar umas 8 horas a soro, no mínimo, depois de uma injecção das valentes.

A minha experiência nisto diz-me que, principalmente no mundo da restauração, as pessoas ainda não estão preparadas para isto. A simples utilização de uma faca que corte um fruto que eu não posso comer e depois irem passar num fruto que eu vou comer pode-me colocar em risco. E poucos são aqueles que limpam os utensílios de cozinha depois de usarem numa fruta ou legume e voltam a usar noutro. Esta pequena atenção pode salvar vidas.

Sara, 3 anos, alergia às proteínas do leite de vaca e ao ovo

Chamo-me Susana e sou mãe da Sara Margarida, uma menina de 3 anos com alergias alimentares.

A Sara nasceu em Abri de 2011. Até aos 6 meses a alimentação foi leite materno exclusivo. Depois chegou a altura de preparar a entrada no infantário e o meu regresso ao trabalho.

Introduzi a papinha de farinha não láctea com um leite adaptado para a idade dela. Ao 13º dia teve a primeira reação. Vomitou tudo durante a noite e no dia seguinte teve mais um episódio de vómito. Falei com a pediatra e aguardámos para ver como corria o dia seguinte (nota: não havia mais nenhum sintoma). E ao 15º dia de papinha, ela terminou de comer e começou a ficar com urticária na metade esquerda da face, e o olho esquerdo todo vermelho também. Foi a nossa primeira ida ao serviço de urgência. A médica que estava no serviço fez as perguntas todas e disse que era uma reação alérgica a qualquer coisa, e mandou retirar a papinha e o leite. Receitou um anti-alérgico e recomendou uma consulta com a pediatra para relatar o sucedido.
E assim foi. Dias depois fomos à consulta, a pediatra fez o diagnóstico preliminar de alergia à proteína do leite de vaca (APLV) e disse que deveríamos consultar uma imuno-alergologista para fazer exames, confirmar o diagnóstico e preparar o acompanhamento da Sara.

Foi uma longa consulta, a médica perguntou tudo e mais alguma coisa, e depois passamos aos testes cutâneos. O teste foi feito para o leite total e cada proteína individualmente. Resultados todos positivos, sem qualquer margem para dúvida. O exame também indicou que a alergia mais elevada é a da caseína.

Seguiu-se um período de adaptação ao novo leite e às papinhas. Apareceram ainda pequenas reações em torno da boca, e lá tivemos de fazer testes com o leite e as papinhas que a Sara já tinha experimentado para descobrir o que estava a fazer reação. A médica passou um outro leite extensamente hidrolisado de caseína que a Sara toma até hoje.

Aos 12 meses, chegou altura de introduzir o ovo. Foi tudo combinado com a alergologista. Fez-nos um plano com as quantidades e os dias para fazer. Só misturei 1/4 de gema de ovo com o puré de legumes em dois dias diferentes, e ela vomitou tudo cinco minutos depois. Falei com a médica, suspendemos a introdução e marcámos testes. Tudo positivo.
Aos 13 meses a Sara teve uma reação grave de anafilaxia. Tudo indica que comeu uma papinha com vestígios de leite, mas a causa nunca ficou bem clara. Isto levou-nos a mais uma série de testes, que incluiu todos os cereais da papinha que ela tinha comido naquele dia. E tivemos mais uma surpresa: positivo para trigo, aveia e soja.

Desde então fazemos exames semestralmente. Em Julho deste ano repetimos as análises dos IGE’s e a alergia mantém-se elevada para o leite e ovo. Soja, trigo e aveia negativos.

Destaco dois aspetos como sendo os mais difíceis da vida de uma criança com alergias múltiplas: por um lado, a falta de informação sobre o assunto, e a dificuldade que temos em fazer os outros compreederem a gravidade desta patologia. Por outro lado, a busca por alimentos compatíveis e a necessidade de ler rótulos difíceis.

Tem sido uma aprendizagem crescente desde o primeiro diagnóstico. Aprendizagem a vários níveis. Sobre o próprio tema das alergias, sobre alimentação, receitas e tudo o que seja importante para fazer com que a minha filha seja feliz e tenha uma vida normal como as outras crianças não alérgicas.

A Sara tem uma alimentação equilibrada e diversificada. À excepção do almoço e lanche da escola, praticamente tudo é cozinhado em casa. Desde os 2 anos que tem consciência que não pode comer de tudo, e atualmente já sabe que tem de perguntar o que pode ou não comer. Nunca mostrou qualquer tipo de descontentamento com a sua realidade, porque sabe que estamos sempre preparados com uma alternativa para ela.
Esta aprendizagem contínua motivou-me a partilhar as minhas experiências com os outros, com o objetivo de ajudar outras mães que passam pelas mesmas dificuldades e/ou que estão agora a começar a lidar com esta situação.

Gabriel, 7 anos, alergia à proteína do leite e ao ovo

O meu filho tem um historial de alergias alimentares. Teve dermatite atópica grave desde o nascimento, que foi apenas controlado ao 1º ano de vida.  Até aos 6 meses mamou em exclusivo e nessa altura, em que fui trabalhar, iniciamos as papas lácteas. Deixou de crescer. Consultas e consultas seguintes sem crescer um cm.

Muitos exames ao sangue, às fezes, pesar na mesma balança do hospital de 5 em 5 dias, consultas de genética, estudos genéticos,  registar tudo o que comia, consulta de metabólicas, estudo metabólico, exame ao estômago e ao intestino, ambos com biópsia, despiste da doença celíaca, provocações orais ao ovo e ao leite…

Consulta de nutrição, gastro,  dermatologia, pediatria e tantas mais “ias” que nem vale a pena referir.

Disseram-nos que teria atrasos motores e psicológicos, não andaria nem falaria antes dos dois anos, optimisticamente falando. Andou e falou quando celebrou o 1º aniversário surpreendendo tudo e todos.  No entanto, usou fralda até aos 4 anos, não conseguia controlar o esfíncter, as dejecções variavam entre 8 a 10 vezes por dia.

Foram detectadas Alergia à Proteína do Leite de Vaca e Alergia ao Ovo. A primeira dava reacção retardada e nunca dava sinal de alergia nos testes, era um falso positivo.

6 anos depois, foi levantada a restrição ao leite mas, se o ingere fica com a barriga distendida, diarreias, dores e barriga constantes, um inferno.

Continuamos sem, saber se faz alergia ou é intolerante, temos apenas o aviso que devemos continuar a evicção.

Quanto ao ovo, tocar com ovo nos lábios faz imediatamente com que o mesmo comece a inchar.

O sistema digestivo fica absolutamente alterado com a ingestão de qualquer um dos alimentos: diarreias, mal estar, dor de barriga, barriga muito inchada, vómitos. Demora semanas até que normalize, a pele fica alterada, coça-se constantemente até fazer ferida.

Mas ao ver a reportagem pensei no quão felizardos somos porque não entra em choque anafilático. Somos uns sortudos!

Nesta 5ª feira voltamos ao hospital, fará teste prick, de novo, com ovo cru e cozido.

O pior destas provocações é saber lidar com as expectativas dele, está sempre à espera que deixe de ser alérgico.

No início foi muito complicado, não tinha onde me apoiar, a nutricionista em nada me ajudava e aos poucos, experimentando muito, fui fazendo tantas coisas que ele podia comer: pudim de chocolate, panna cotta de morango, bolo de cacau ou alfarroba, bolachinhas, mousse de chocolate, gelado, gelatinas…Cada vez que conseguia e o resultado era comestível, sentia-me como se me tivesse saído a sorte grande. Era melhor que ganhar o euromilhões!

O diagnóstico de alérgico demorou meses, muitos e insuportáveis meses de ansiedade e angústia.

Hoje vivemos um dia de cada vez, completamente controladores do que come, rótulos, preparação, contaminação cruzada. Já não pedimos que deixe de ser alérgico apenas que todos saibamos viver com isto.

Se é duro?

Muito duro, especialmente quando o vejo maravilhado a contemplar um gelado ou um bolo na pastelaria, arranca-se-me um pedaço cá dentro por me sentir incapaz de o proteger desta incapacidade de comer o mesmo que quase todos os outros.

Preocupa-me como será na adolescência quando não puder comer um hamburguer com os amigos ou partilhar uma pizza.

Espero ter-lhe ensinado a lidar com a diferença mas só o tempo o dirá.

João, 4 anos, alergia à proteína do leite

Chamo-me Marta, sou casada, arquitecta de profissão e mãe de um menino desde Maio de 2010. O meu filho, já com quase quatro anos tem Alergia à Proteína do Leite de Vaca (APLV)… Como sei por experiência própria, a Alergia Alimentar pressupõe uma aprendizagem sobre o tema, pois as mães numa fase inicial não sabem o que fazer e as dúvidas são tantas que se sentem à deriva. Por isso, aqui vos conto um pouco da história de aventuras que eu e o meu filho passamos desde os seus primeiros meses de idade e que ainda hoje perduram.

Tinha o João cerca de 3 meses quando descobrimos a alergia… a partir dessa data, tudo mudou! Por indicação médica, uma vez que o leite materno não era suficiente para as necessidades alimentares do meu filho, introduzimos o suplemento alimentar. Não era a primeira vez que o tomava. Já antes, com poucos dias de vida, tinha-lhe sido oferecido leite, que não o materno, no hospital onde o tivera. Mas nessa altura nada tinha acontecido. Foi em casa, aos 3 meses, que ao alimenta-lo com leite que não o meu, vi o corpo do meu filho ficar todo vermelho, tipo um escaldão do sol… No dia a seguir voltei a dar-lhe o suplemento e passado 5 minutos ele ficou muito pior que a noite anterior. Foi então que o médico suspeitou da APLV! Aos 6 meses realizou-se exames ao sangue, IGE específico ao leite, confirmando a ALERGIA.

A verdade é que esta notícia foi um choque. Não sabia como reagir, o que pensar. O médico foi ajudando: orientou para o tipo de leite adaptado que o João deveria tomar, e no processo de diversificação alimentar, disse-me como escolher as papas, bolachas e iogurtes para o meu filho. Nomeadamente para ler sempre os rótulos dos alimentos, medicamentos, cremes, etc pois existia a possibilidade de ele ser alérgico a outros tipos de alimentos para além do leite e, mais tarde uma possível necessidade de dessensibilização alimentar quando este fosse um pouco mais velho.

À medida que o João crescia não podia comer nada com leite ou sequer com vestígios. Durante a nossa a aprendizagem descobrimos que o meu filho fazia alergia de contacto. É um menino que não pode ser beijado ou tocado com mãos que não sejam previamente bem lavadas! Mais tarde, com 1 ano e meio, o João fez uma reacção anafilática. Esta, é do ponto de vista da doença alérgica a reacção mais grave e ameaçadora da vida que alguém pode ter. Nunca descobrimos o que a desencadeou, mas descobrimos neste contexto, com novos exames ao sangue que este era também alérgico ao ovo, à amêndoa e ao pêlo de cão e gato. Devido à gravidade da alergia, passou a usar um Kit de Emergência com anti-histamínico, corticóide e uma caneta de adrenalina, que o acompanha sempre para todo o lado que ele vá, na sua mochilinha.

Os primeiros meses após a descoberta da alergia foram marcados por momentos angustiantes, assustadores e muitas dúvidas… desde a descoberta de produtos sem leite, à aventura do supermercado em ler todos os rótulos (alimentação, cremes, shampoos, medicamentos) ao convívio com as outras crianças, os baloiços, o cinema, as festinhas de aniversário e, claro, o grande dilema, A ESCOLA.

Hoje, o João tem quase 4 anos e continua altamente alérgico. Mas, é de notar que é uma criança muito feliz!!! Não se sente diferente das outras crianças e muito menos excluído. Aceita, respeita e tem consciência das suas restrições alimentares porque enfrentámos o problema de uma forma natural, transparente e frontal. O facto do João também estar a crescer ajuda muito: o João encara a doença com naturalidade e sem qualquer tipo de revolta. É uma criança normal afinal de contas. E sei que é assim que se sente. Actualmente encontra-se a fazer dessensibilização ao ovo. É uma festa para ele sempre que come um pedacinho de ovo cozido. E para nós também…

Existem imensos produtos para este tipo de crianças desde bolachas, chocolates, iogurtes, bebida de soja de vários sabores, queijos vegan, gomas, rebuçados, pipocas, batatas fritas, salsichas, fiambre, pão, gelados, etc. O João é uma criança que come de tudo, croissants, natas, bolos, gelatina, gelados, quiche, empadas, etc… não existe nada que ele não coma!!! Bem entendido, desde que não contenha leite ou vestígios, bem como produtos com ovo e frutos secos. Claro que muitas das coisas são cozinhadas em casa!!!

 

Maria, 17 anos, alergia à proteína do leite

Não me lembro de ser de outra maneira. A minha primeira recordação desta “diferença” foi no infantário, devia ter 4 anos (sim, só entrei aos 4 anos porque era demasiado arriscado eu comer numa cantina, ou ter outras pessoas a alimentar-me para além dos meus pais ou avós), descia as escadas, pequenina, e ia à cozinheira pedir o meu pãozinho do lanche, diferente dos outros, com doce de morango. Era nessas alturas que percebia que havia algo diferente comigo, mas não tinha noção dos problemas que este problema poderia causar-me. Sabia que não podia beber leite, sabia que não comia o pão com queijo ou manteiga, e sabia que não podia mexer o iogurte como os meus colegas faziam para ele ficar mais líquido. Tirando isso, era uma criança feliz, e não sofria minimamente com isso.

À medida que cresci comecei a fazer mais amigos, a mudar de escola,  a ir a festas de anos e visitas de estudo. A minha mãe ia à escola e falava com toda a gente, cozinheiras, funcionárias, professoras, monitoras. Lembro-me de quando a minha comida do almoço era diferente dos outros, e por vezes mais saborosa, e os outros meninos tinham inveja de mim e eu sentia-me mal. Mas eu não tinha culpa de não poder comer aquele puré horrível, certo?

Quando comecei a ir a festas de anos a minha mãe tinha sempre de ir falar com os pais do aniversariante e os meus amigos também não percebiam porquê. Habituei-me desde sempre a não comer nada da mesa da comida, muito menos o bolo, ou até as batatas fritas ou a gelatina. Coisas que ninguém pensa que podem ter leite… mas têm. O que é que eu fazia aos saquinhos de doces que davam no fim? Agradecia e trazia para os meus irmãos (que ficavam super contentes quando eu vinha de festas).

Quando aprendi a ler, e cresci mais um bocadinho, comecei a ficar mais independente. Aprendi com a minha mãe que tinha de ler sempre os rótulos de tudo o que comia, mesmo que já o tivesse comido. NUNCA experimentava coisas novas, mesmo que não tivessem escrito “leite” ou “soro de leite em pó” ou “proteínas lácteas” no rótulo, sem a presença da minha mãe. Não arriscava nunca, tinha sido ensinada assim. Por exemplo, eu tenho 17 anos e comi gomas pela primeira vez o ano passado. Estranho porque gomas não têm leite? Pois… algumas têm.

A epipen (injeção de adrenalina) andava e anda sempre comigo. Comecei a ensinar aos meus amigos como é que se faz, caso me aconteça alguma coisa. Deixei de comer na escola, porque as empresas de cantinas escolares não se responsabilizam minimamente por estes problemas. No bar da minha escola não há absolutamente nada que eu possa comer, a não ser maçãs… No Macdonalds, a única coisa que eu posso comer são as batatas e douradinhos (e houve uma altura em que estes deixaram de estar nos menus). Num centro comercial normal, com cerca de 20 restaurantes, devo poder comer uma refeição em dois ou três. Nunca comi comida chinesa, japonesa, paquistanesa, indiana (…) esses restaurantes não são para mim. Sempre que vou jantar fora com a minha família é necessário perguntar se o bife que eu escolhi comer é frito em manteiga ou se o arroz tem manteiga… e a questão é que não basta perguntar! É preciso explicar aos cozinheiros que é uma questão de vida ou de morte. Uma questão muito grave, pois muitos confundem a minha alergia com uma simples intolerância à lactose. Para esses, não, não é a mesma coisa.

Agora, na minha vida adolescente, os problemas continuam a existir. Com a idade veio a responsabilidade e alguma independência mas também vêm perigos. Perigos que pessoas que não conhecem esta realidade nem sequer imaginam. Comecei a sair à noite, a jantar fora com os meus amigos, a ter namorados (“isso não tem nada a ver…” pensam vocês). De facto, sempre que é marcado um jantar de aniversário eu tenho sempre de perguntar ao aniversariante que comida vamos comer, falar com o cozinheiro, certificar-me de tudo. E sim, já aconteceu dizerem-me “se calhar é melhor não comeres” e também, mas quantas vezes, são marcados jantares em pizarias onde eu fico a olhar enquanto todos os meus amigos se deliciam. Doloroso? Já foi mais. Agora já estou habituada, e não me faz diferença. E bebidas alcoólicas? Quantos cocktails ou shots têm leite? Existem mais do que imaginam. Sabiam que se eu tivesse namorado, e ele estivesse a comer um gelado, não me podia dar um beijinho a seguir? Pois é namorados/as de pessoas alérgicas, cuidado! Não me parece que queiram assassinar a vossa cara-metade…

Por fim acho que vou falar de uma das coisas que me custa mais e que vai afetar mais a minha vida nos próximos tempos: as viagens. Há cerca de 3 anos eu tinha uma visita de estudo dos meus sonhos, a Paris, com os meus amigos, os meus amigos de infância, os meus melhores amigos, a minha turma. Eu sonhava em ir, queria ir mais do que tudo. A minha mãe também queria que eu fosse, os meus amigos também, a minha professora também… Mas foi possível eu ir? Não. Não se responsabilizavam pela minha comida. 9 dias no estrangeiro, França ainda por cima, um país onde a maioria da comida e feita com queijos, leites, natas. A organização da viagem não se quis responsabilizar. E eu fiquei cá. Fiquei a ver os meus amigos todos fazerem a coisa que eu mais queria fazer no mundo e não o pude fazer simplesmente pelo facto de ter uma grave alergia alimentar. Ninguém sabe o quanto me custou, principalmente porque não podia culpar ninguém. Só esta maldita alergia. Desejei tantas vezes ser outra pessoa. Lembro-me da minha mãe me dizer “minha querida, se pudesse trocava contigo” mas não  podia trocar. Ninguém podia.

Agora, no 12º ano, uma viagem a Londres já é algo mais possível, por serem menos dias, mas mesmo assim, vai ser difícil a minha alimentação lá, e vai ser diferente da dos meus colegas. Ir viajar só com amigos já tem vindo a acontecer. E felizmente todos os meus amigos têm noção da gravidade da alergia e temos todos muito cuidado quando cozinhamos. Aos que conheço há pouco tempo, costumo fazer um pequeno “discurso” antes de começarmos a fazer o jantar, tanto que uns já o sabem de cor.

Tenho tido algumas amigas minhas que têm feito comigo receitas sem leite especiais para mim, para eu me sentir melhor. Algumas mães fazem bolos sem leite para mim nas festas. O apoio dos amigos e a compreensão é das coisas mais importantes neste processo. Ultimamente até temos algumas “piadas privadas” sobre a minha alergia, uma espécie de humor negro, todos nos rimos, eu não levo a mal, rir é o melhor remédio.

Para o ano que vem vou para a universidade, mais uma nova experiência, não sei como vai ser. As praxes, as comidas nas cantinas, os jantares de curso, as festas, as saídas, o erasmus…  um mundo novo.

Mas existe uma esperança para a redução deste meu problema: a dessensibilização. Já comecei a fazer no hospital e ando a ingerir leite todos os dias! Um pouco estranho para mim e é uma quantidade minúscula, mas tem vindo a aumentar… O objetivo não é eu poder começar a comer pizas (infelizmente) mas sim a minha reação não ser tão grave, e não correr risco de vida. Vale a pena não vale?

É importante dizer que ter alergias alimentares não é o fim do mundo, aliás, a minha alimentação é bastante saudável e a minha vida consegue ser absolutamente normal! É só preciso ter cuidado, e não sou só eu, mas sim todas as pessoas que me rodeiam.

Este problema tem tido ultimamente muita divulgação e não sabem o quão feliz isso me faz. Sinto-me representada e compreendida a todos os níveis, e por isso agradeço imenso à Alimenta, por me fazer ver que existem muitas pessoas como eu. E lembrem-se, não é o fim do mundo!