Gabriel, 7 anos, alergia à proteína do leite e ao ovo

Sexta-feira 16th, Janeiro 2015 / 16:43
Gabriel, 7 anos, alergia à proteína do leite e ao ovo

O meu filho tem um historial de alergias alimentares. Teve dermatite atópica grave desde o nascimento, que foi apenas controlado ao 1º ano de vida.  Até aos 6 meses mamou em exclusivo e nessa altura, em que fui trabalhar, iniciamos as papas lácteas. Deixou de crescer. Consultas e consultas seguintes sem crescer um cm.

Muitos exames ao sangue, às fezes, pesar na mesma balança do hospital de 5 em 5 dias, consultas de genética, estudos genéticos,  registar tudo o que comia, consulta de metabólicas, estudo metabólico, exame ao estômago e ao intestino, ambos com biópsia, despiste da doença celíaca, provocações orais ao ovo e ao leite…

Consulta de nutrição, gastro,  dermatologia, pediatria e tantas mais “ias” que nem vale a pena referir.

Disseram-nos que teria atrasos motores e psicológicos, não andaria nem falaria antes dos dois anos, optimisticamente falando. Andou e falou quando celebrou o 1º aniversário surpreendendo tudo e todos.  No entanto, usou fralda até aos 4 anos, não conseguia controlar o esfíncter, as dejecções variavam entre 8 a 10 vezes por dia.

Foram detectadas Alergia à Proteína do Leite de Vaca e Alergia ao Ovo. A primeira dava reacção retardada e nunca dava sinal de alergia nos testes, era um falso positivo.

6 anos depois, foi levantada a restrição ao leite mas, se o ingere fica com a barriga distendida, diarreias, dores e barriga constantes, um inferno.

Continuamos sem, saber se faz alergia ou é intolerante, temos apenas o aviso que devemos continuar a evicção.

Quanto ao ovo, tocar com ovo nos lábios faz imediatamente com que o mesmo comece a inchar.

O sistema digestivo fica absolutamente alterado com a ingestão de qualquer um dos alimentos: diarreias, mal estar, dor de barriga, barriga muito inchada, vómitos. Demora semanas até que normalize, a pele fica alterada, coça-se constantemente até fazer ferida.

Mas ao ver a reportagem pensei no quão felizardos somos porque não entra em choque anafilático. Somos uns sortudos!

Nesta 5ª feira voltamos ao hospital, fará teste prick, de novo, com ovo cru e cozido.

O pior destas provocações é saber lidar com as expectativas dele, está sempre à espera que deixe de ser alérgico.

No início foi muito complicado, não tinha onde me apoiar, a nutricionista em nada me ajudava e aos poucos, experimentando muito, fui fazendo tantas coisas que ele podia comer: pudim de chocolate, panna cotta de morango, bolo de cacau ou alfarroba, bolachinhas, mousse de chocolate, gelado, gelatinas…Cada vez que conseguia e o resultado era comestível, sentia-me como se me tivesse saído a sorte grande. Era melhor que ganhar o euromilhões!

O diagnóstico de alérgico demorou meses, muitos e insuportáveis meses de ansiedade e angústia.

Hoje vivemos um dia de cada vez, completamente controladores do que come, rótulos, preparação, contaminação cruzada. Já não pedimos que deixe de ser alérgico apenas que todos saibamos viver com isto.

Se é duro?

Muito duro, especialmente quando o vejo maravilhado a contemplar um gelado ou um bolo na pastelaria, arranca-se-me um pedaço cá dentro por me sentir incapaz de o proteger desta incapacidade de comer o mesmo que quase todos os outros.

Preocupa-me como será na adolescência quando não puder comer um hamburguer com os amigos ou partilhar uma pizza.

Espero ter-lhe ensinado a lidar com a diferença mas só o tempo o dirá.

  • Maria Monteiro

    Vai correr tudo bem, não se preocupe! Com o tempo ele vai perceber que isto das alergias é algo que não o vai impedir assim de tanta coisa 🙂 é tudo uma questão de hábito. Falando por mim, como sempre soube que me fazia mal, nunca quis mesmo comer. Tenho curiosidade, claro, mas associo sempre ao mau-estar e isso tudo passa. Se ele tiver noção do perigo que corre não se vai preocupar assim tanto por não comer aquele bolo. Tudo feito com responsabilidade e cuidado, ele consegue ter uma vida e adolescência feliz e perfeitamente normal 🙂

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