Maria, 17 anos, alergia à proteína do leite

Não me lembro de ser de outra maneira. A minha primeira recordação desta “diferença” foi no infantário, devia ter 4 anos (sim, só entrei aos 4 anos porque era demasiado arriscado eu comer numa cantina, ou ter outras pessoas a alimentar-me para além dos meus pais ou avós), descia as escadas, pequenina, e ia à cozinheira pedir o meu pãozinho do lanche, diferente dos outros, com doce de morango. Era nessas alturas que percebia que havia algo diferente comigo, mas não tinha noção dos problemas que este problema poderia causar-me. Sabia que não podia beber leite, sabia que não comia o pão com queijo ou manteiga, e sabia que não podia mexer o iogurte como os meus colegas faziam para ele ficar mais líquido. Tirando isso, era uma criança feliz, e não sofria minimamente com isso.

À medida que cresci comecei a fazer mais amigos, a mudar de escola,  a ir a festas de anos e visitas de estudo. A minha mãe ia à escola e falava com toda a gente, cozinheiras, funcionárias, professoras, monitoras. Lembro-me de quando a minha comida do almoço era diferente dos outros, e por vezes mais saborosa, e os outros meninos tinham inveja de mim e eu sentia-me mal. Mas eu não tinha culpa de não poder comer aquele puré horrível, certo?

Quando comecei a ir a festas de anos a minha mãe tinha sempre de ir falar com os pais do aniversariante e os meus amigos também não percebiam porquê. Habituei-me desde sempre a não comer nada da mesa da comida, muito menos o bolo, ou até as batatas fritas ou a gelatina. Coisas que ninguém pensa que podem ter leite… mas têm. O que é que eu fazia aos saquinhos de doces que davam no fim? Agradecia e trazia para os meus irmãos (que ficavam super contentes quando eu vinha de festas).

Quando aprendi a ler, e cresci mais um bocadinho, comecei a ficar mais independente. Aprendi com a minha mãe que tinha de ler sempre os rótulos de tudo o que comia, mesmo que já o tivesse comido. NUNCA experimentava coisas novas, mesmo que não tivessem escrito “leite” ou “soro de leite em pó” ou “proteínas lácteas” no rótulo, sem a presença da minha mãe. Não arriscava nunca, tinha sido ensinada assim. Por exemplo, eu tenho 17 anos e comi gomas pela primeira vez o ano passado. Estranho porque gomas não têm leite? Pois… algumas têm.

A epipen (injeção de adrenalina) andava e anda sempre comigo. Comecei a ensinar aos meus amigos como é que se faz, caso me aconteça alguma coisa. Deixei de comer na escola, porque as empresas de cantinas escolares não se responsabilizam minimamente por estes problemas. No bar da minha escola não há absolutamente nada que eu possa comer, a não ser maçãs… No Macdonalds, a única coisa que eu posso comer são as batatas e douradinhos (e houve uma altura em que estes deixaram de estar nos menus). Num centro comercial normal, com cerca de 20 restaurantes, devo poder comer uma refeição em dois ou três. Nunca comi comida chinesa, japonesa, paquistanesa, indiana (…) esses restaurantes não são para mim. Sempre que vou jantar fora com a minha família é necessário perguntar se o bife que eu escolhi comer é frito em manteiga ou se o arroz tem manteiga… e a questão é que não basta perguntar! É preciso explicar aos cozinheiros que é uma questão de vida ou de morte. Uma questão muito grave, pois muitos confundem a minha alergia com uma simples intolerância à lactose. Para esses, não, não é a mesma coisa.

Agora, na minha vida adolescente, os problemas continuam a existir. Com a idade veio a responsabilidade e alguma independência mas também vêm perigos. Perigos que pessoas que não conhecem esta realidade nem sequer imaginam. Comecei a sair à noite, a jantar fora com os meus amigos, a ter namorados (“isso não tem nada a ver…” pensam vocês). De facto, sempre que é marcado um jantar de aniversário eu tenho sempre de perguntar ao aniversariante que comida vamos comer, falar com o cozinheiro, certificar-me de tudo. E sim, já aconteceu dizerem-me “se calhar é melhor não comeres” e também, mas quantas vezes, são marcados jantares em pizarias onde eu fico a olhar enquanto todos os meus amigos se deliciam. Doloroso? Já foi mais. Agora já estou habituada, e não me faz diferença. E bebidas alcoólicas? Quantos cocktails ou shots têm leite? Existem mais do que imaginam. Sabiam que se eu tivesse namorado, e ele estivesse a comer um gelado, não me podia dar um beijinho a seguir? Pois é namorados/as de pessoas alérgicas, cuidado! Não me parece que queiram assassinar a vossa cara-metade…

Por fim acho que vou falar de uma das coisas que me custa mais e que vai afetar mais a minha vida nos próximos tempos: as viagens. Há cerca de 3 anos eu tinha uma visita de estudo dos meus sonhos, a Paris, com os meus amigos, os meus amigos de infância, os meus melhores amigos, a minha turma. Eu sonhava em ir, queria ir mais do que tudo. A minha mãe também queria que eu fosse, os meus amigos também, a minha professora também… Mas foi possível eu ir? Não. Não se responsabilizavam pela minha comida. 9 dias no estrangeiro, França ainda por cima, um país onde a maioria da comida e feita com queijos, leites, natas. A organização da viagem não se quis responsabilizar. E eu fiquei cá. Fiquei a ver os meus amigos todos fazerem a coisa que eu mais queria fazer no mundo e não o pude fazer simplesmente pelo facto de ter uma grave alergia alimentar. Ninguém sabe o quanto me custou, principalmente porque não podia culpar ninguém. Só esta maldita alergia. Desejei tantas vezes ser outra pessoa. Lembro-me da minha mãe me dizer “minha querida, se pudesse trocava contigo” mas não  podia trocar. Ninguém podia.

Agora, no 12º ano, uma viagem a Londres já é algo mais possível, por serem menos dias, mas mesmo assim, vai ser difícil a minha alimentação lá, e vai ser diferente da dos meus colegas. Ir viajar só com amigos já tem vindo a acontecer. E felizmente todos os meus amigos têm noção da gravidade da alergia e temos todos muito cuidado quando cozinhamos. Aos que conheço há pouco tempo, costumo fazer um pequeno “discurso” antes de começarmos a fazer o jantar, tanto que uns já o sabem de cor.

Tenho tido algumas amigas minhas que têm feito comigo receitas sem leite especiais para mim, para eu me sentir melhor. Algumas mães fazem bolos sem leite para mim nas festas. O apoio dos amigos e a compreensão é das coisas mais importantes neste processo. Ultimamente até temos algumas “piadas privadas” sobre a minha alergia, uma espécie de humor negro, todos nos rimos, eu não levo a mal, rir é o melhor remédio.

Para o ano que vem vou para a universidade, mais uma nova experiência, não sei como vai ser. As praxes, as comidas nas cantinas, os jantares de curso, as festas, as saídas, o erasmus…  um mundo novo.

Mas existe uma esperança para a redução deste meu problema: a dessensibilização. Já comecei a fazer no hospital e ando a ingerir leite todos os dias! Um pouco estranho para mim e é uma quantidade minúscula, mas tem vindo a aumentar… O objetivo não é eu poder começar a comer pizas (infelizmente) mas sim a minha reação não ser tão grave, e não correr risco de vida. Vale a pena não vale?

É importante dizer que ter alergias alimentares não é o fim do mundo, aliás, a minha alimentação é bastante saudável e a minha vida consegue ser absolutamente normal! É só preciso ter cuidado, e não sou só eu, mas sim todas as pessoas que me rodeiam.

Este problema tem tido ultimamente muita divulgação e não sabem o quão feliz isso me faz. Sinto-me representada e compreendida a todos os níveis, e por isso agradeço imenso à Alimenta, por me fazer ver que existem muitas pessoas como eu. E lembrem-se, não é o fim do mundo!