Maria, 17 anos, alergia à proteína do leite

Quarta-feira 20th, Novembro 2013 / 22:56
Maria, 17 anos, alergia à proteína do leite

Não me lembro de ser de outra maneira. A minha primeira recordação desta “diferença” foi no infantário, devia ter 4 anos (sim, só entrei aos 4 anos porque era demasiado arriscado eu comer numa cantina, ou ter outras pessoas a alimentar-me para além dos meus pais ou avós), descia as escadas, pequenina, e ia à cozinheira pedir o meu pãozinho do lanche, diferente dos outros, com doce de morango. Era nessas alturas que percebia que havia algo diferente comigo, mas não tinha noção dos problemas que este problema poderia causar-me. Sabia que não podia beber leite, sabia que não comia o pão com queijo ou manteiga, e sabia que não podia mexer o iogurte como os meus colegas faziam para ele ficar mais líquido. Tirando isso, era uma criança feliz, e não sofria minimamente com isso.

À medida que cresci comecei a fazer mais amigos, a mudar de escola,  a ir a festas de anos e visitas de estudo. A minha mãe ia à escola e falava com toda a gente, cozinheiras, funcionárias, professoras, monitoras. Lembro-me de quando a minha comida do almoço era diferente dos outros, e por vezes mais saborosa, e os outros meninos tinham inveja de mim e eu sentia-me mal. Mas eu não tinha culpa de não poder comer aquele puré horrível, certo?

Quando comecei a ir a festas de anos a minha mãe tinha sempre de ir falar com os pais do aniversariante e os meus amigos também não percebiam porquê. Habituei-me desde sempre a não comer nada da mesa da comida, muito menos o bolo, ou até as batatas fritas ou a gelatina. Coisas que ninguém pensa que podem ter leite… mas têm. O que é que eu fazia aos saquinhos de doces que davam no fim? Agradecia e trazia para os meus irmãos (que ficavam super contentes quando eu vinha de festas).

Quando aprendi a ler, e cresci mais um bocadinho, comecei a ficar mais independente. Aprendi com a minha mãe que tinha de ler sempre os rótulos de tudo o que comia, mesmo que já o tivesse comido. NUNCA experimentava coisas novas, mesmo que não tivessem escrito “leite” ou “soro de leite em pó” ou “proteínas lácteas” no rótulo, sem a presença da minha mãe. Não arriscava nunca, tinha sido ensinada assim. Por exemplo, eu tenho 17 anos e comi gomas pela primeira vez o ano passado. Estranho porque gomas não têm leite? Pois… algumas têm.

A epipen (injeção de adrenalina) andava e anda sempre comigo. Comecei a ensinar aos meus amigos como é que se faz, caso me aconteça alguma coisa. Deixei de comer na escola, porque as empresas de cantinas escolares não se responsabilizam minimamente por estes problemas. No bar da minha escola não há absolutamente nada que eu possa comer, a não ser maçãs… No Macdonalds, a única coisa que eu posso comer são as batatas e douradinhos (e houve uma altura em que estes deixaram de estar nos menus). Num centro comercial normal, com cerca de 20 restaurantes, devo poder comer uma refeição em dois ou três. Nunca comi comida chinesa, japonesa, paquistanesa, indiana (…) esses restaurantes não são para mim. Sempre que vou jantar fora com a minha família é necessário perguntar se o bife que eu escolhi comer é frito em manteiga ou se o arroz tem manteiga… e a questão é que não basta perguntar! É preciso explicar aos cozinheiros que é uma questão de vida ou de morte. Uma questão muito grave, pois muitos confundem a minha alergia com uma simples intolerância à lactose. Para esses, não, não é a mesma coisa.

Agora, na minha vida adolescente, os problemas continuam a existir. Com a idade veio a responsabilidade e alguma independência mas também vêm perigos. Perigos que pessoas que não conhecem esta realidade nem sequer imaginam. Comecei a sair à noite, a jantar fora com os meus amigos, a ter namorados (“isso não tem nada a ver…” pensam vocês). De facto, sempre que é marcado um jantar de aniversário eu tenho sempre de perguntar ao aniversariante que comida vamos comer, falar com o cozinheiro, certificar-me de tudo. E sim, já aconteceu dizerem-me “se calhar é melhor não comeres” e também, mas quantas vezes, são marcados jantares em pizarias onde eu fico a olhar enquanto todos os meus amigos se deliciam. Doloroso? Já foi mais. Agora já estou habituada, e não me faz diferença. E bebidas alcoólicas? Quantos cocktails ou shots têm leite? Existem mais do que imaginam. Sabiam que se eu tivesse namorado, e ele estivesse a comer um gelado, não me podia dar um beijinho a seguir? Pois é namorados/as de pessoas alérgicas, cuidado! Não me parece que queiram assassinar a vossa cara-metade…

Por fim acho que vou falar de uma das coisas que me custa mais e que vai afetar mais a minha vida nos próximos tempos: as viagens. Há cerca de 3 anos eu tinha uma visita de estudo dos meus sonhos, a Paris, com os meus amigos, os meus amigos de infância, os meus melhores amigos, a minha turma. Eu sonhava em ir, queria ir mais do que tudo. A minha mãe também queria que eu fosse, os meus amigos também, a minha professora também… Mas foi possível eu ir? Não. Não se responsabilizavam pela minha comida. 9 dias no estrangeiro, França ainda por cima, um país onde a maioria da comida e feita com queijos, leites, natas. A organização da viagem não se quis responsabilizar. E eu fiquei cá. Fiquei a ver os meus amigos todos fazerem a coisa que eu mais queria fazer no mundo e não o pude fazer simplesmente pelo facto de ter uma grave alergia alimentar. Ninguém sabe o quanto me custou, principalmente porque não podia culpar ninguém. Só esta maldita alergia. Desejei tantas vezes ser outra pessoa. Lembro-me da minha mãe me dizer “minha querida, se pudesse trocava contigo” mas não  podia trocar. Ninguém podia.

Agora, no 12º ano, uma viagem a Londres já é algo mais possível, por serem menos dias, mas mesmo assim, vai ser difícil a minha alimentação lá, e vai ser diferente da dos meus colegas. Ir viajar só com amigos já tem vindo a acontecer. E felizmente todos os meus amigos têm noção da gravidade da alergia e temos todos muito cuidado quando cozinhamos. Aos que conheço há pouco tempo, costumo fazer um pequeno “discurso” antes de começarmos a fazer o jantar, tanto que uns já o sabem de cor.

Tenho tido algumas amigas minhas que têm feito comigo receitas sem leite especiais para mim, para eu me sentir melhor. Algumas mães fazem bolos sem leite para mim nas festas. O apoio dos amigos e a compreensão é das coisas mais importantes neste processo. Ultimamente até temos algumas “piadas privadas” sobre a minha alergia, uma espécie de humor negro, todos nos rimos, eu não levo a mal, rir é o melhor remédio.

Para o ano que vem vou para a universidade, mais uma nova experiência, não sei como vai ser. As praxes, as comidas nas cantinas, os jantares de curso, as festas, as saídas, o erasmus…  um mundo novo.

Mas existe uma esperança para a redução deste meu problema: a dessensibilização. Já comecei a fazer no hospital e ando a ingerir leite todos os dias! Um pouco estranho para mim e é uma quantidade minúscula, mas tem vindo a aumentar… O objetivo não é eu poder começar a comer pizas (infelizmente) mas sim a minha reação não ser tão grave, e não correr risco de vida. Vale a pena não vale?

É importante dizer que ter alergias alimentares não é o fim do mundo, aliás, a minha alimentação é bastante saudável e a minha vida consegue ser absolutamente normal! É só preciso ter cuidado, e não sou só eu, mas sim todas as pessoas que me rodeiam.

Este problema tem tido ultimamente muita divulgação e não sabem o quão feliz isso me faz. Sinto-me representada e compreendida a todos os níveis, e por isso agradeço imenso à Alimenta, por me fazer ver que existem muitas pessoas como eu. E lembrem-se, não é o fim do mundo!

  • Ricardo

    Parabéns pelo excelente texto Maria! Votos de sucesso em toda a vida pessoal, académica e profissional. Temos de saber ultrapassar as coisas menos boas e a Maria demonstrou que o sabe fazer.

  • Aline Generoso

    Q lindo relato, q me emocionou. Tenho uma pequena de 2 anos c alergia ao leite, ovos, peixes, e essa semana suspeita de alergia à soja a ser confirmada. Uma mae sofre por ver seu filho ser privado de tantas alegrias, q n é so o alimento, e sim o convívio despreocupado c os outros; e sim, a vontade é msm de trocar de lugar. Mas cm n é possível, o melhor a fazer é educar-mos nossos pequenos alérgicos p oq os espera mundo afora. Parabéns a Maria pela maturidade e à mae, q a educou assim.

  • Maria de Almeida

    Obrigada pelos comentários! 🙂

    • silene

      Parabéns pelo texto querida!
      Tenho uma bebe de 2 anos e 4 meses com alergia a leite, ovo, carne, soja , peixe , oleoginosas e alguns legumes…..

  • Encarnação Faro

    Um relato muito interessante e muito claro. Eu também sou intolerante á lactose e ao trigo e sei o quanto é complicado viver com está situação. Quando vou ás compras passo muito tempo a ler os rótulos, è uma situação muito difìcil, passei a comprar produtos para celíacos, não que eu o seja, mas porque sei que ai o trigo não está inserido. Tenho que ter muito cuidado com as tranferencias que se possas fazer através do manuseamento dos alimentos que contenham trigo na sua composição, porque a mais pequena quantidade desta substância me provoca uma distenção abdominal horrivel e muito desconfortante durante dias.

  • Carlos Lozoya

    Obrigado Maria pelo teu interessante ponto de vista. Nós os médicos, entre os que incluo, muitas vezes não valorizamos na sua justa medida o impacto que uma alergia alimentar tão frequente na infância e que muitas vezes se resolve antes dos 5 anos de idade, causa nas pessoas adultas. O teu relato contribui para estimular a minha vontade de saber mais sobre a alergia alimentar e ajudar a pessoas como tú, Mais uma vez: bem hajas!

  • Isabel

    Bom dia Maria, tenho uma filha de 13 anos que tb. é alérgica à proteína láctea e gostaria de trocar algumas ideias consigo ou a sua mãe, é possível?

  • Maria de Almeida

    Obrigada a todos!!

    • Cristina Cardoso

      Linda Maria!

      Como se vê a tua alergia não te impediu de crescer e de te tornares na linda mulherzinha que és!
      Obrigada por partilhares comigo as tuas pequenas vitórias, sabes como isso é importante para mim e para a minha filhota (que, como sabes tem a mesma alergia…)!
      O importante é ser cuidadoso, estar informado e ser muito amado! Depois tudo vai acontecendo… até as visitas de estudo a Londres (que inveja…)!
      Beijinho Maria e… aproveita!

      A profezita

      • Maria de Almeida

        obrigada por tudo professora !! beijinhos

  • Andreia Tavares

    Sou solidária consigo. Como eu a compreendo. Não sou alérgica ao leite (felizmente), mas sou alérgica ao marisco e mais recentemente ao bacalhau. O medo de comer fora de casa apodera-se de nós de uma forma pouco normal. E até o medo de comer em casa, quando para os outros há marisco e para nós não. Não deixe que o problema das alergias a privem de viajar. Em vez de ficar em hotéis, fique em apartamentos, onde pode cozinhar para si. Ou então faça campismo, ou quando for maior, compre uma autocaravana, onde pode andar com a cozinha sempre presente. Um beijinho grande.

  • Ana Monteiro

    Neste momento a Maria deixou de poder ter acesso à EPIPEN e ANAPEn, as injecções que a acompanham desde pequenina vá para onde vá e que simplesmente podem ser a diferença entre a vida e a morte.
    Motivo ; deixaram de estar disponíveis no mercado português e não existem nas farmácias. A Alimenta deveria tomar uma posição pública e alertar a comunicação social.para esta situação gravíssima.

  • Rita Loureiro

    Olá, tenho a mesma alergia que tu e em breve vou fazer uma
    viagem para o estrangeiro e infelizmente não vou poder ser eu a cozinhar!
    Queria saber se já estiveste em alguma situação parecida e como é que
    conseguiste lidar com a situação.

  • Ana Plácido

    Obrigada Maria
    É enriquecedor o teu discurso, a forma clara como descreves a tua vida, o dia a dia, os amigos, os perigos e todos os medos associados. Lido com a tua realidade à 16 anos, desde o nascimento do meu filho, identifiquei-me em todas as tuas palavras. Aquece-me o coração ver que esta geração, consegue superar e sensibilizar o meio envolta para o problema e mais que tudo os amigos colaboram e preocupam-se.
    Um grande beijinho!

  • Sara Soares

    Ola faço tuas as minhas palavras e acrescentava mais … ha 25 anos que tenho o mesmo problema e cada vez pior..sou altamente alergica as proteinas do leite ..beijinhos

  • Diogo Vieira

    Gostei muito do teu testemunho Maria, parece que estava a ler alguns episódios da minha vida.

  • Ana Karine Brum

    Olá ! Amei e me identifiquei com o seu relato. Tenho um filho com Alergia à proteína ao Leite de Vaca, tão semelhante a sua história!! Hoje ele tem 10 anos e sempre penso na adolescência dele. Aqui no Brasil, é tudo similar !!!! Me emocionei ao ler.. pq vejo ele falando assim e vivenciando tudo como vc descreveu muito bem!! Penso que é fundamental para nós exemplos como o seu. Aqui tenho a seguinte frase para ele todos os dias… O IMPORTANTE NESSA VIDA É SER FELIZ!!
    E assim desejo pra vc , independente das restrições , a FELICIDADE!!! BJS DA KARINE E DO KAIK BRUM – NITERÓI – RJ – BRASIL

  • Cintia

    Maria, seu depoimento não só me emocionou como meu fortaleceu. Tenho uma filha que hoje está com 6 anos e já passa por tudo isso. É uma luta diária e muito delicada, porque ainda existe muita ignorância sobre o assunto, o que as vezes cria situações de preconceito fragilizando mais ainda o alérgico.
    Parabéns pela sua atitude!!!!!

  • Claudia Costa Morgado

    Maria, adorei o teu texto. Revejo-me na tua mãe, parece que estás a falar de mim, pois o meu filho mais velho, quase com 5 anos, sofre exactamente da mesma alergia do que tu. Espero sinceramente conseguir incutir-lhe essa forma de vêr as coisas e a responsabilidade, sem fazer drama e ter uma vida o mais normal possível.
    Ele já tentou a dessensibilização mas não resultou e tem vindo a piorar.
    Se souberem entretanto de tratamentos alternativos, por favor partilhem, sou capaz de dar a volta ao mundo para tratar o meu pequenino. E nós pais, só nós sabemos como andamos sempre com o coração nas mãos….

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