Pedro Maia, 38 anos, alérgico às Xantinas

Quarta-feira 04th, Janeiro 2017 / 09:54
Pedro Maia, 38 anos, alérgico às Xantinas

O meu nome é Pedro e até há um ano atrás olhava com desdém para pessoas com alergias. Como é que uma comida específica poderia fazer tão mal a alguém, e ainda por cima só fazer mal a partir de certa idade? Sempre desconfiei de pessoas que, em adultas, de repente se declaravam alérgicas ou intolerantes a algum alimento, ao ponto de em alguns casos dar-lhes um pouco desse alimento na comida (aquilo que vejo hoje como uma atrocidade e que felizmente só fiz mesmo com pessoas com falsas alergias).

Sempre fui obeso, com o meu peso a oscilar entre os 140 e os 170 quilogramas desde os 20 anos. Vivi em vários países, imergi-me nas suas gastronomias e sempre fui um grande apreciador da boa mesa. Há cerca de um ano resolvi porém que estava na hora de perder peso porque a minha profissão obriga-me a várias deslocações de avião e nessas alturas sentia-me bastante censurado por quem me rodeava.

Feita uma breve experimentação com vários regimes alimentares, adaptei-me bem a uma alimentação LCHF (Low Carb High Fat) e, sem exercício, comecei a perder peso ao longo das semanas… 170… 165… 150…140…135…130…120… e eis que nesta milestone acontece o primeiro episódio de alergia.

O meu trabalho obriga por vezes a grandes jornadas nocturnas em que faço uso de copiosas quantidades de café. Numa dessas noites bebi cerca de 1 litro de um belíssimo blend de arábicas das Caraíbas e o resultado foi acabar na cama com palpitações e um crescente aperto na garganta. Consegui controlar a minha respiração na manhã seguinte e atribuí a obstrução que sentia no pescoço a alguma inflamação pelas muitas horas de reuniões que tinha tido no dia anterior mas ao longo da manhã a sensação de aperto piorou até que ao almoço dei entrada no hospital.

Como estava em Portugal nada foi feito na urgência: fui diagnosticado a olho pelo médico com uma pneumonia química, medicado com um poderoso anti-histamínico e mandado para casa ao fim de 12 horas.

O episódio seguinte aconteceu em Londres após a ingestão das minhas trufas de chocolate 85% favoritas onde, fruto de um verdadeiro Serviço Nacional de Saúde fui finalmente diagnosticado por um médico imunoalergologista (sim, em Inglaterra à especialistas nas urgências, quem diria?) bastante surpreso: pela primeira vez em 10 anos de carreira o clínico confrontava-se com alguém que tinha testado positivo a todas as xantinas externas ao corpo humano.

As Xantinas existem em nós, fazem parte do nosso organismo. As xantinas externas de origem não-animal que podemos consumir são a Cafeína, a Teobromina e a Teofilina. Existe ainda uma forma animal destas xantinas que é a para-xantina, resultantes de um animal se alimentar com as plantas que contêm xantinas. Enquanto a Cafeína e a Teofilina são relativamente fáceis de evitar consumir por terem portadores óbvios (café e chá) a Teobromina tem sido aquela que mais vezes me tem levado ao hospital dado que não só está no chocolate mas também na alfarroba e em vários frutos secos quando não devidamente processados em separado de grãos cacau, o que lança um manto de suspeita sobre nozes, pistácios, cajus, castanhas do maranhão e outros.

Durante 37 anos a minha obesidade protegeu-me de desenvolver alergia a estas substâncias, e quanto mais peso perdi mais violentas se tornaram as reacções a cada vez mais pequenas doses.

Se a minha primeira reacção ao café aconteceu depois de ter ingerido um litro do mesmo, a mais recente (à poucas horas antes de escrever estas palavras) aconteceu simplesmente com café em pó em suspensão no ar de um café enquanto a proprietária moía o café sem ter a tampa no depósito de café moído. Mal a reacção alérgica começou saí imediatamente e agora cá estou, com os olhos raiados de sangue, ainda muito pingo no nariz, mas já felizmente sem o aperto na garganta que me acompanhou nas primeiras duas horas após o contacto. Estou são e salvo, vou sobreviver, sobrevivi a mais um ataque do destino.

Como quando peço uma cevada e me trazem um instantâneo de cereais e café como se fosse só cevada ou uma chávena com algum café porque se enganaram à primeira a fazer o pedido.

Como quando me trazem um chá e me dizem que é uma infusão.

Como quando aplico um creme que não descrimina que tem manteiga de cacau nos ingredientes.

Como quando me garantem que uma sobremesa não tem chocolate e depois dizem que afinal tem quando já estou a fazer uso da Anapen.

Como quando num café apinhado, com má circulação de ar, os vapores de café acabam por me provocar uma reacção alérgica.

É difícil… procuro sobreviver… ironizo muito com a minha situação, há gente a viver em muito piores condições de vida… tento não tomar anti-histamínicos muito fortes, às vezes aguento um episódio só com Cetirizina porque não cheguei a ter sintomas demasiados violentos e esperando que a obstrução das vias respiratórias não aconteça de forma tão rápida que me impeça de chegar à minha mochila e usar a Anapen.

Todas as ingestões de comida fora de casa são muito complicadas: ainda recentemente num restaurante com estrelas Michelin, em Genebra, tive uma reacção alérgica porque se esqueceram que os cubinhos de gelatina de medula de vaca tinham sido feitos com chá preto. Antes tinha sido um gelado de limão que afinal também tinha chocolate branco como ingrediente secreto, em Paris, a dar o mote para mais uma ida às urgências numa das raras ocasiões em que não tinha a Anapen por perto.

É complicado viver assim… perdi já todo o meu excesso de peso, tenho actualmente 84kgs para 182cm mas não há um só dia em que não deseje voltar a ter 170 se me garantissem que voltaria a não ser alérgico às xantinas e a viver nesta prisão invisível, rodeado de inimigos que não conheço onde se escondem e à mercê dos conhecimentos de confecção de um empregado de mesa ou a falta de uma tampa no reservatório de um moinho de café.

Gostava de poder viver outra vez como vivi, é muito difícil ser tão regrado com a alimentação quando uma alergia se manifesta na idade adulta, quando estas coisas se desenvolvem em criança é mais fácil lidar com estas sentenças de morte escondidas e desenvolver mecanismos para evitar males maiores como por exemplo andar SEMPRE com uma Anapen por perto.

E pronto… assim se vive e (às vezes quase) se morre.

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